Não lembro o nome do meu 1º motorista, mas como poderia? Já trabalhei com muitos. Ele então entrou todo imponente, como se fosse dirigir a carruagem da rainha da Inglaterra! Apesar de que, tem cada passageiro pior que cavalo, de tão sem educação (pensando melhor... coitados dos cavalos... são melhores que estas pessoas, com certeza)!
Então,
o motorista entrou todo exibido, claro, não era um ônibus comum: LIGEIRINHO é O
ônibus e não UM ônibus! Eu estava mais exibido que ele. Até, algumas vezes, dei
um jeito de fazer o motorista esbarrar na buzina ou no botão do farol só para
chamar a atenção. Porém, percebi que eu estava sendo muito imaturo, infantil e me
controlei. Se eu saísse da indústria em 1990, não precisaria de nada para chamar
a atenção, porque eu seria novidade! Hoje, pleno século XXI, Curitiba (pioneira
neste tipo de transporte) está mais do que acostumada comigo!
Primeiro
tubo, no primeiro terminal do caminho, 7h da manhã. Tudo maravilhoso! Poucas
pessoas, a maioria bem curiosa, nem sabiam como entrar direito. Eram educadas, gentis! Nos primeiros
meses foi tudo tranquilo e aconteciam fatos estranhos isolados aqui e ali, mas
nada que chamasse tanto a atenção. Com o decorrer do tempo, o número de pessoas foi
aumentando e a falta de educação também!
Os
anos foram passando. Lembro que, anualmente eu ia para revisão, mas teve épocas
que fiquei parado por um bom tempo, pois às vezes tinha até reforma. Quando eu
voltava, me assustava com duas coisas: o quanto eu estava mais lindo e o quanto
o número de passageiros tinha duplicado!
Certo
dia, pós-reforma, avistei há mais ou menos 10m de distância uma multidão sem
fim, apinhada, amontoada, mal cabendo naquele tubo minúsculo! Tomei o primeiro
susto mas, fui com fé e coragem! Não poderia desistir assim, na estreia de
minha nova fase!
Chegando
mais perto reparei que era, em sua maioria, gente bem humilde, pelas roupas e
modos. Os homens pareciam trabalhadores braçais: roupa surrada, pele bronzeada,
bonés, mochilas grandes; as mulheres, senhoras também simples, com sacolinhas
de plástico cheias de sei lá o quê.
Muitas
mulheres carregavam crianças, quem sabe levando para creches e depois pareciam partir em direção a seus respectivos trabalhos. Algumas, talvez domésticas ou
algo do gênero (mais tarde me arrependi pelo julgamento precipitado pois,
reparei que certas atitudes não muito corretas, não eram apenas feitas por
essas pessoas).
As
duas portas foram se abrindo, por azar, bem devagar. Mal descerraram, a multidão
entrou. Pareciam duas porteiras se abrindo para entrar a boiada ou os cavalos
enfurecidos (desculpem novamente, xingar os animais que não têm culpa de nada). A competição iniciou para ver qual fila
entraria primeiro e depois para achar lugar vago. Competição pior que o jogo do
Coxa X Atlético na final! Em fração de segundos senti meu amortecedor quase
ceder, de tanto peso, mas não cederia por conta da revisão e da reforma!
Quanto
às conversas e ações, sempre são diversas. A cada tubo, uma novidade! Nunca vou
esquecer algumas que não posso deixar de relatar. Uma aconteceu de um tubo para
o próximo terminal:
Duas senhoras, de pé (porque homem cavalheiro, hoje em dia,
é uma raridade ou novidade e olhem que não sou feminista) começaram a discutir.
Demorei um pouco para perceber o agito e por isto, não entendi bem o motivo que
“acionou o gatilho” para a briga. Só sei que ouvi o seguinte “diálogo”:
-
Cala bocaaaaaaa!
_
Cala boca você! Não me encha o saco! Pelo jeito não lavou o dente ainda, porque
o bafo tá insuportável!
_
Ah... vá *@#*@#*! Não pedi sua opinião se eu to ou não to com bafo!
_
Além de "baforenta", tem a boca suja! Precisa falar palavrão aqui dentro do
ônibus e a esta hora da manhã?
Nessa
altura do campeonato, cheguei ao próximo terminal. As duas mal perceberam. A
multidão foi descendo e as duas foram "levadas" na onda da multidão. Alguns, em
volta, só riam dos "xingões" das duas, outros olhavam com cara feia. Todos que
queriam desembarcar desembarcaram e os que estavam no terminal e queriam
embarcar embarcaram, olhando as duas ainda brigando! Parti e elas ficaram lá,
se gladiando! Sinceramente, espero que tenham apenas brigado com palavras
(porém, algumas palavras, muitas vezes, ferem mais que bofetadas).
Outro
dia, estava eu, bem lotado! Percebi uma moça com uma pasta e livros em uma mão
e uma sacola pesada em
outra. Já havia passado vários tubos e ela parecia estar bem
desconfortável com toda aquela bagagem. Ninguém se ofereceu para segurar alguma
coisa! Notei que ela percebeu um passageiro a sua frente fazer um gesto com o
corpo, demonstrando que iria descer logo (a maioria das pessoas é ansiosa e
começa a se mexer quando pretende descer, no próximo tubo: arruma a alça da
bolsa, se estica um pouco para frente ou ajeita os livros que estão segurando
e alguns até levantam 2 tubos antes, mesmo se o ônibus não está cheio, de medo de
perder o ponto).
A
expressão da moça era tão clara que “li” em seus pensamentos: “Ai, até que enfim,
alguém vai descer!” Mas, ela avistou uma senhora de idade. Outra vez a expressão dela foi
clara: “Ah não! Tinha que ter uma velhinha perto de mim?! Fazer o quê? Vou dar
minha vez pra ela!” O passageiro, como previsto, logo desceu. A jovem
não se moveu, dando a vez à velhinha, só que a infeliz (acho que foi isso que a
moça pensou, porque se fosse eu, pensaria) não pegou o lugar vago, porém, um
rapaz ali perto, "zás", sentou sem dó e piedade no banco vazio. Acredito que
a moça deve ter xingado mentalmente até a 4ª geração do “furão” sem educação!
Uma
outra vez, eu chegando ao último terminal, não acreditei! Semelhante a uma visagem,
mas não era. Muita, muita gente me esperando. Era tanta que parecia
brotar do chão! O carro já estava quase vazio, mas quem disse que, o povo
esperou os passageiros primeiramente descerem de mim? Uma verdadeira guerra para sair
e para entrar, fora as afrontas, insultos, ofensas de tudo quanto é lado:
_
Ei... para de empurrar!
_
Pare você, sua gorda!
_
Gorda? Gorda é tua mãe seu desgraçado!
_
Ei... dá pra parar de brigar e entrar? O povo tá empurrando aqui!
_
Ô gente! Eu quero descer, dá espaço! O povinho sem educação!
E
assim para pior!
Duas
semanas depois disto, lembro de uma mulher empurrada, de tal maneira que, caiu
e quebrou a perna, coitada! Foi o maior furdunço!
Tempos
depois, nesse mesmo terminal reparei algumas coisas insólitas:
Primeiramente,
os vendedores ambulantes. Toda manhã, bem cedo, tinha pelo menos 4, que se
arriscavam a vender por ali, já que é proibido! Imagine se não fosse!
Em torno de 3 vendiam cigarro! Um era velhinho, sempre com a mesma japona, na cor laranja, de
capuz. Ficava em frente do mesmo ônibus (um Alimentador) e oferecia o cigarro como se tivesse
rezando! Era uma ladainha insuportável, com um tom de voz ininterruptamente
igual, constante, durante, pelo menos meia hora:
_
Éééééééé... oh o cigarro aí... só R$ 1,00... ééééééé! _ Éééééééé... oh o
cigarro aí... só R$ 1,00... ééééééé! _ Éééééééé... oh o cigarro aí... só R$
1,00... ééééééé! _ Éééééééé... oh o cigarro aí... só R$ 1,00... ééééééé!
É... (até eu me enjoei de escrever)
Tudo
bem ser necessitado, estar tentando sobreviver, mas puxa, vendendo cigarro?! Num lugar
que não tem licença e ainda enchendo a paciência de quem fuma e principalmente
de que não fuma? Ah... Ninguém merece, não é?
Outro
vendedor, na verdade, outra. Uma senhora um tanto acima do peso e parecia que
nunca penteava o cabelo ou lavava o rosto - outra chata! Tinha uma voz com uma
altura grave, mas com forte intensidade e vendia a mesma marca de cigarro do senhor
idoso. Aliás, todos ali, vendiam “Classic”!
_
Oh o Crassic R$1,00! Oh Crassic! Só R$1,00!
Ah,
fala sério! CRassic? Ninguém merece, de novo! Nem eu, que sou veículo!
O
outro vendedor era de CD e DVD e repetia sem parar, acho que até, sem respirar:
_ CD, DVD, CD! CD, DVD, CD! Só 10 real!
Pura
pirataria, com a maior cara de peroba e 10 "reaL"?! Coitados dos transeuntes! A maioria
parecia gente que trabalhava para valer, correndo para lá e para cá. E ainda tinham
que ouvir, interruptamente, uns caras assim?! Não acho justo!
À
tarde, as vendas ficavam mais diversificadas: tinha vendedor de cocada e o de balas de gomas.
É... você leu direito: "gomaS"! E a ladainha era esta:
_Olha
o chocolate e bala de gomaS! Baratinho, baratinho! Leva 3 por R$1,00!
O
vendedor de cocada gritava:
_ Olha a cocada aí, quebra-queixo, ei! Olha a
cocada aí, quebra- queixo, ei!
Falava deste jeito, sem
parar, por um bom tempo!
Tinha
um jovem que vendia cocada também e ficava cantando as moças bonitas ao mesmo
tempo! O jargão sem graça era assim:
_
Olha a cocada aí moçada! Leva 3 e paga só R$1,00! Moça bonita não paga, mas
também não leva!
Nesse
mesmo terminal, tempos atrás tinha cachorro para dar, vender, trocar, fazer
sabão (naquela época, infelizmente se fazia sabão com os pobres cães de rua) e
ainda sobrava uma matilha (adoro uma hipérbole)! Um dia, contei mais de 20,
incluindo um filhote de rottweiler!
Até que uma vez, no meio de mais um furdunço, um vira-lata mordeu a perna de uma
mulher e foi aquela gritaria:
_
Pega, pega, pega!
Daquele
dia em diante, não sei se muita gente reclamou para os órgãos responsáveis, mas,
só contei 2, no máximo, vagueado por lá.
Bem,
vou parar um pouco de falar em
terminal. Vou citar como são, a maioria das viagens.
Até
às 8h da manhã, o carro fica abarrotado de gente. Depois, aos poucos, vai
esvaziando. Dá impressão que as pessoas são mais sofisticadas quando andam de
ônibus para trabalhar, depois das 8h, pois se vestem um pouco melhor. Porém,
não se iludam pois, os modos nem sempre são os melhores!
Homens
continuam não dando lugar para mulheres e poucos cedem lugar para idosos,
gestante ou pessoas com crianças de colo. Aqueles que conseguem arranjar
lugar sentam e imediatamente começam a ‘dormir’ (de roncar) ou grudam os olhos no vidro observando uma paisagem tão maravilhosa que, não conseguem, coitados,
reparar se tem alguém perto com necessidades especiais (me engana que eu gosto)! Mulheres
com bebê têm mais sorte, mas nem sempre. Absurdo!
De
manhã, depois das 8h, até os aromas mudam também.
Antes, não sei como, sinto cheiro de suor, urina e até bebida (acho que alguns passam a noite na
farra e vão direto para o trabalho). Os
que exageram na bebida à noite ou de manhã, mexem com os demais dentro do ônibus, no horário matutino. Falam alto e dizem besteiras, contam piadas indecentes e sem graça. O que mais odeio é o vômito, que fatalmente
acontece!
Dica:
nunca sente em um banco aonde o chão em volta está molhado, pois, pode contar
que algum bebum "gorfou" por ali e o pobre do motorista teve que jogar água com
desinfetante para poder seguir viagem sem ficar aquele cheiro azedo horrível e
aquela aparência nojenta!
Certa
vez, entrou um mamado bem no alvorecer do dia! Vestido com um terno surrado, barba por
fazer, miando! Já entrou xingando o motorista (coitado):
_
Mas que demora seu motorista! Já não aguentava mais ficar
na
fila! (falava e cambaleava ao mesmo tempo) Vocês são todos iguais! Acham que a
gente tem a vida inteira pra esperar! Eu quero chegar logo em casa e
comer o figo, sabe? O figo do frango! Porque dizem que tem muito ferro!
Ouviu seu motorista? Eu quero comer o figo do frango e o seu junto se demorar
muito!
E
assim foi por intermináveis 6 tubos! Finalmente ele desceu e todos respiraram
aliviados! Ouvi um passageiro perguntar, bem baixinho, para ele mesmo:
_
Que será esse figo?
Ai
meu céu! Até eu que, só sou uma máquina
sei: fígado!
(...)
(Não deixe de ler: "Memórias de um LIGEIRINHO" - Parte 3)


Dei muitas gargalhadas. Gostei (quer dizer, imagino que ia odiar se estivesse lá no momento) do vendedor de gomaS hahahhhaha. Esse pessoal é mesmo sem noção.
ResponderExcluirOpa... que bom! Um dos objetivos do texto é fazer rir, mesmo ;) !
ExcluirDei muitas gargalhadas. Gostei (quer dizer, imagino que ia odiar se estivesse lá no momento) do vendedor de gomaS hahahhhaha. Esse pessoal é mesmo sem noção.
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